Eventos Climáticos Já Impactam Empresas: por que o seguro não está acompanhando?

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Era uma sexta-feira de abril quando o gestor de operações de uma distribuidora de alimentos no interior do Rio Grande do Sul recebeu a notícia: a rodovia que conectava o centro de distribuição aos principais clientes da região estava completamente interditada pelas enchentes. Três dias de chuva intensa haviam transformado o que era uma via de escoamento essencial em um rio improvisado. O estoque parado, os pedidos cancelados, os funcionários em casa e os contratos com grandes redes varejistas em risco de rescisão. A empresa acionou imediatamente o seguro empresarial e descobriu, ali, que a apólice contratada dois anos antes não cobria interrupção de operação causada por eventos climáticos externos à propriedade. O problema não foi a enchente. Foi o que veio depois.

Essa história não é um caso isolado. Em 2024, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) registrou dez eventos climáticos extremos no Brasil, sendo três deles classificados como sem precedentes na história do país: as enchentes no Rio Grande do Sul, a seca na Amazônia e a onda de calor na região central em agosto, quando temperaturas superaram 42°C em Cuiabá e ficaram 7°C acima da média histórica. Juntos, esses eventos revelaram uma fragilidade estrutural que o país preferia não enxergar.

Os números deixam pouca margem para interpretação. Segundo estudo da Superintendência de Seguros Privados (Susep) divulgado em dezembro de 2024, a lacuna de proteção securitária no Brasil, ou seja, a diferença entre as perdas econômicas totais e o que efetivamente foi coberto por seguros, chega a 93%. Com esse resultado, o Brasil ocupa a segunda pior posição entre 14 países analisados, atrás apenas da China.

Na prática, isso significa que apenas 7% dos prejuízos causados por desastres no país são indenizados por apólices. Para contextualizar a dimensão do problema, basta olhar para o evento mais emblemático do período: as enchentes de abril e maio de 2024 no Rio Grande do Sul causaram danos totais estimados em R$ 88,9 bilhões, segundo levantamento conjunto do BID, da Cepal e do Banco Mundial. Cinco meses depois, os avisos de sinistros ao sistema segurador somavam R$ 6 bilhões, o que representa menos de 7% do prejuízo real, segundo dados da Susep. O restante foi absorvido pelo setor privado, pelo governo e, em grande parte, pelas próprias empresas afetadas.

Esse cenário não é exclusivo do Brasil, mas aqui ele é proporcionalmente mais grave. Globalmente, em 2024, apenas 43% das perdas econômicas de US$ 318 bilhões causadas por catástrofes naturais estavam seguradas Swiss Re, segundo o Swiss Re Institute, gerando um gap de proteção de US$ 181 bilhões. No Brasil, a lacuna de proteção chega a 93%, o segundo pior resultado entre 14 países avaliados pela Susep Sindsegsp, ficando atrás apenas da China. Ao mesmo tempo, relatórios do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (CICEF) indicam que eventos climáticos extremos já impõem perdas médias de R$ 110 bilhões por ano ao PIB brasileiro Poder360. São R$ 110 bilhões em prejuízos anuais em um país onde o seguro cobre menos de um décimo do que é perdido.

O ponto central não é que eventos climáticos extremos acontecem, pois isso todo gestor já sabe. O ponto central é que o mercado segurador foi construído para um padrão de risco que não existe mais, e que a maioria das empresas brasileiras segue operando com apólices desenhadas para o clima do passado, enquanto o clima do presente já está cobrando a conta.

Nesse artigo, você vai entender por que o seguro empresarial tradicional não acompanhou o ritmo dos eventos climáticos; quais são as lacunas práticas que a maioria das apólices deixa expostas; como calcular o gap climático de cobertura da sua empresa antes que um sinistro revele esse número da pior forma possível; e quais caminhos concretos existem para construir uma proteção real e compatível com o cenário atual.

Eventos Climáticos Deixaram de Ser Exceção: o novo padrão de risco que as empresas precisam entender

Durante décadas, eventos climáticos extremos foram tratados no mundo corporativo como riscos de cauda, ou seja, aqueles com baixíssima probabilidade de ocorrer, mas alto impacto quando acontecem. Planejamentos financeiros os ignoravam, apólices de seguro os tratavam como raridades e gestores de risco raramente os incluíam nos cenários prioritários. Esse modelo de pensar o risco climático, no entanto, colapsou silenciosamente ao longo da última década.

Os dados de 2024 são contundentes. Segundo o relatório NatCatSERVICE da Munich Re, os desastres naturais causaram perdas econômicas totais de US$ 320 bilhões ao redor do mundo naquele ano, dos quais apenas US$ 140 bilhões estavam segurados. Isso significa que mais de 56% do prejuízo real ficou inteiramente descoberto, absorvido por empresas, governos e famílias sem qualquer compensação financeira estruturada.

Por sua vez, o Swiss Re Institute aponta que o gap de proteção global em 2024 atingiu US$ 181 bilhões, reforçando que a lacuna entre o risco real e a cobertura disponível segue em expansão. Pela quinta vez consecutiva, as perdas seguradas por catástrofes naturais superaram a marca de US$ 100 bilhões no mesmo ano, o que evidencia que esse nível de perdas passou a ser a nova normalidade do mercado segurador global.

No Brasil, o cenário é ainda mais preocupante. Segundo dados históricos da Munich Re compilados desde 1980, apenas cerca de 5% das perdas causadas por desastres naturais no país foram seguradas ao longo dessas quatro décadas. Para efeito de comparação, nos Estados Unidos esse índice supera 50% em muitas categorias de risco. Esse abismo entre a exposição real e a proteção disponível coloca o Brasil em uma posição de vulnerabilidade estrutural que se agrava à medida que eventos climáticos se tornam mais frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis.

O efeito dominó nas operações empresariais

O impacto direto de eventos climáticos nas empresas é apenas a camada mais visível do problema. Uma fábrica que alaga, um galpão que desmorona, um veículo de entrega que fica preso em uma enxurrada são os danos que aparecem nas fotos e nos noticiários. Mas existe uma segunda camada de impacto, muito mais silenciosa e igualmente devastadora, que raramente é computada nos diagnósticos corporativos: o efeito dominó na cadeia operacional.

As enchentes de abril e maio de 2024 no Rio Grande do Sul oferecem o exemplo mais recente e expressivo desse fenômeno no Brasil. Segundo levantamento conjunto do BID, da Cepal e do Banco Mundial, os danos totais chegaram a R$ 88,9 bilhões, sendo que 69% desse valor, equivalente a R$ 61 bilhões, atingiu diretamente o setor produtivo. Dos 497 municípios gaúchos, 478 foram afetados pelo evento. A produção industrial do estado recuou quase 8% entre abril e maio.

Em cidades como Canoas, os recebimentos via PIX por empresas caíram 27% em um único mês, representando uma perda de cerca de R$ 200 milhões em transações. Em Porto Alegre, onde o volume mensal de recebimentos empresariais costuma ultrapassar R$ 15 bilhões, a queda em maio representou uma perda bruta estimada em R$ 1,6 bilhão. A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) classificou o evento como o maior sinistro provocado por um único desastre na história do seguro brasileiro, com mais de R$ 1,6 bilhão em pedidos feitos por segurados. No entanto, os danos totais segurados representaram apenas uma fração marginal dos R$ 88,9 bilhões em prejuízos reais identificados.

Quando eventos climáticos comprometem estradas, ferrovias, portos ou centros logísticos, o impacto não fica restrito às empresas diretamente atingidas. Ele se propaga por toda a cadeia de valor conectada àquela infraestrutura. Um fornecedor de componentes que para de entregar porque sua planta foi inundada interrompe a produção de uma montadora que sequer teve qualquer dano físico em suas instalações. Um porto que fecha por dias por causa de condições climáticas extremas atrasa embarques destinados a regiões distantes. No caso gaúcho, as BRs 116, 290 e 386, que formam o principal eixo logístico do estado, foram interditadas simultaneamente, e o aeroporto internacional de Porto Alegre ficou fechado por meses. O Rio Grande do Sul representa 6,6% das exportações brasileiras, e o impacto foi sentido por toda a cadeia produtiva nacional. O maior risco não está apenas dentro da empresa. Está no ecossistema que a sustenta.

Por que o seguro empresarial não acompanhou os eventos climáticos?

Entender por que o mercado segurador ficou para trás é fundamental para que as empresas possam tomar decisões mais inteligentes sobre sua proteção. Não se trata de má-fé das seguradoras nem de negligência dos gestores. Trata-se de uma estrutura construída para um padrão de risco que simplesmente não existe mais.

O primeiro problema está nos modelos atuariais que sustentam a precificação dos seguros. Esses modelos são calibrados com base em séries históricas de dados de sinistros, e quanto mais longa a série histórica utilizada, maior a confiança estatística no modelo, pelo menos segundo a lógica tradicional da atuária. O problema é que essa lógica pressupõe estabilidade do padrão de risco ao longo do tempo.

Quando o clima muda de forma acelerada e não linear, como acontece hoje, o passado deixa de ser um bom preditor do futuro. A Swiss Re estima que as perdas seguradas por catástrofes naturais crescem a uma taxa de 5% a 7% ao ano em termos reais, o que significa que, em menos de quinze anos, o volume de perdas pode dobrar em relação aos níveis atuais. Seguradoras que ainda precificam risco climático com base em dados de décadas atrás estão, na prática, vendendo proteção para um mundo que já não existe.

O segundo problema é ainda mais prático e imediato: a estrutura das coberturas em si. A maioria das apólices empresariais tradicionais foi desenhada para cobrir danos físicos diretos aos bens da empresa segurada. Incêndio, roubo, dano elétrico e queda de granizo sobre o telhado são os eventos que as apólices mais comuns contemplam. O que elas raramente cobrem de forma adequada são as perdas decorrentes da interrupção das operações causadas por eventos climáticos externos, a ruptura da cadeia de fornecimento, a perda de receita por impossibilidade de entrega, os custos extras de logística emergencial e os danos reputacionais gerados por falhas de entrega.

Esses são exatamente os impactos que mais crescem em relevância conforme os eventos climáticos se tornam mais frequentes e mais complexos. O seguro foi estruturado para proteger o que acontecia. Não o que está acontecendo.

As lacunas práticas que nenhuma apólice deixa explícita

Há quatro lacunas específicas que tornam o seguro empresarial tradicional inadequado para o cenário atual de eventos climáticos. Entendê-las é o primeiro passo para qualquer diagnóstico sério de exposição de risco corporativo.

A primeira lacuna é a limitação geográfica da cobertura. A maioria das apólices cobre apenas os ativos fisicamente localizados no endereço da empresa segurada. Isso significa que um evento climático que aconteça a centenas de quilômetros de distância, mas que interrompa a cadeia logística da empresa, não é coberto, mesmo que o prejuízo financeiro seja tão grande quanto o de um dano físico direto.

A segunda lacuna é a exclusão de eventos considerados força maior. Muitas apólices contêm cláusulas que excluem explicitamente eventos de força maior, categoria na qual eventos climáticos extremos frequentemente se enquadram. Na prática, isso significa que justamente os eventos mais severos e de maior impacto são os que menos têm cobertura garantida.

A terceira lacuna é a defasagem nos limites de indenização. Apólices contratadas há dois ou três anos foram precificadas com base em um cenário de risco diferente do atual. Com a maior frequência de eventos climáticos, os limites que pareciam adequados no momento da contratação podem ser insuficientes para cobrir os prejuízos reais de um sinistro hoje.

A quarta lacuna é a ausência de cobertura paramétrica. Seguros paramétricos são produtos que pagam automaticamente uma indenização predefinida quando um parâmetro climático específico é atingido, como nível de chuva, velocidade do vento ou temperatura. Esses produtos são mais adequados para o cenário atual de eventos climáticos, mas raramente são oferecidos proativamente pelas corretoras tradicionais.

Qual é o custo invisível dos eventos climáticos nas empresas?

Quando uma empresa sofre um sinistro causado por eventos climáticos e aciona o seguro, o foco imediato naturalmente recai sobre o valor dos bens danificados. Qual é o custo de reparar o telhado? Quanto custam os equipamentos perdidos? Qual é o valor do estoque destruído? Essas são perguntas com respostas relativamente objetivas, que os processos de peritagem das seguradoras conseguem endereçar, ainda que de forma lenta e burocrática.

O problema é que esses custos diretos frequentemente representam apenas uma fração do prejuízo total. As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul ilustram bem essa dinâmica. Enquanto os pedidos de indenização ao sistema segurador somaram R$ 1,6 bilhão, os danos totais avaliados por organismos internacionais chegaram a R$ 88,9 bilhões. A diferença, de quase 55 vezes, representa o custo real que ficou inteiramente fora do alcance das apólices contratadas. Segundo o BID, o desastre teve potencial de reduzir o PIB gaúcho em 1,3% naquele ano. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) projetou uma perda total de até R$ 97 bilhões para toda a economia brasileira, levando em conta os efeitos indiretos em outros estados. Só no varejo gaúcho, os prejuízos na primeira semana de maio de 2024 superaram R$ 585 milhões, segundo levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre.

Há ainda um impacto que é ainda mais difícil de quantificar, mas que pode ser o mais duradouro de todos: o dano reputacional. Em um mercado onde a confiabilidade operacional é um diferencial competitivo, uma empresa que falha sistematicamente em entregar por causa de eventos climáticos começa a ser percebida como instável pelos seus clientes. Os pedidos não entregues geram multas contratuais. Os clientes que não foram atendidos buscam fornecedores alternativos, e muitos não voltam. Os funcionários que ficam sem trabalho por tempo prolongado pedem demissão, levando consigo conhecimento e experiência que não aparecem em nenhuma apólice. O maior prejuízo quase nunca aparece na apólice. Ele aparece no caixa, semanas ou meses depois do evento.

A Verdade Desconfortável: sua empresa acredita estar protegida contra eventos climáticos, mas está?

Esta é, provavelmente, a parte mais importante deste artigo, e também a mais desconfortável. A grande maioria das empresas brasileiras que possuem seguro empresarial acredita genuinamente estar protegida contra os principais riscos que enfrentam. Afinal, pagam os prêmios em dia, renovam as apólices anualmente e têm um número de corretora para acionar em caso de sinistro. Essa crença, no entanto, não foi testada. E ela só será testada no pior momento possível: quando um evento climático real acontecer.

O problema estrutural é que a maioria das empresas trata o seguro como uma compra e não como uma estratégia. Compra-se uma apólice da mesma forma que se compra um insumo, com foco no preço, na renovação automática e na menor fricção possível no processo. Não há diagnóstico prévio de exposição real a eventos climáticos. Não há análise das cláusulas de exclusão. Não há revisão periódica à luz das mudanças no cenário de risco. Não há integração entre a apólice de seguro e o planejamento de continuidade de negócios da empresa. Nesse contexto, o seguro vira uma aposta, não uma proteção.

Os números corroboram essa percepção. O Swiss Re Institute registrou 142 catástrofes que geraram perdas seguradas apenas em 2023, um novo recorde histórico. Em 2024, pela quinta vez consecutiva, as perdas seguradas globais ultrapassaram US$ 100 bilhões. A projeção da Swiss Re para 2025 aponta para US$ 145 bilhões em perdas seguradas, com um cenário de pico que pode chegar a US$ 300 bilhões em um único ano, caso um furacão de grande intensidade atinja uma área urbana densamente populada. Mesmo nesse ambiente de risco crescente e mensurável, as empresas continuam renovando apólices desatualizadas e acreditando estar protegidas. O próximo evento climático não vai perguntar se sua apólice está atualizada.

O Gap Climático de Cobertura: o maior risco estratégico das empresas hoje

Existe um conceito que precisa entrar definitivamente no vocabulário da gestão de riscos corporativa brasileira: o gap climático de cobertura. Ele pode ser definido como a distância entre o risco real que uma empresa corre em razão de eventos climáticos e o que a sua apólice de seguro efetivamente cobre. Quanto maior esse gap, maior a exposição financeira silenciosa da empresa e mais vulnerável ela está a um evento que pode comprometer não apenas um trimestre, mas a própria continuidade do negócio.

A magnitude desse gap no Brasil é expressiva. Com apenas cerca de 5% das perdas por desastres naturais seguradas desde 1980, segundo dados históricos da Munich Re, o país apresenta um dos piores índices de proteção climática entre as economias de porte médio no mundo. Para o setor empresarial, isso significa que a grande maioria das perdas causadas por eventos climáticos extremos é absorvida internamente, sem qualquer compensação formal. Em termos práticos, as empresas brasileiras assumem, muitas vezes sem saber, uma posição de auto-seguro involuntário contra riscos climáticos. Esse cenário se agrava quando se considera que a Swiss Re projeta um crescimento médio de 5% a 7% ao ano nas perdas seguradas globais, o que implica que o volume de riscos sem cobertura tende a crescer na mesma proporção, ou em proporção ainda maior, nos mercados com baixa penetração de seguros como o brasileiro.

O gap climático de cobertura não é um problema exclusivo de pequenas e médias empresas. Grandes corporações, com equipes inteiras de gestão de riscos e corretoras especializadas, também podem apresentar lacunas significativas, especialmente quando as apólices não foram revisadas à luz das mudanças climáticas dos últimos cinco anos. Identificar esse gap exige um exercício que vai além de revisar o contrato de seguro. Exige mapear, de forma sistemática, todos os pontos de vulnerabilidade climática da operação: quais rotas logísticas são críticas e passam por regiões com histórico de eventos extremos, quais fornecedores estão localizados em áreas de risco, quais processos produtivos dependem de infraestrutura pública sujeita a falhas por eventos climáticos e quais contratos comerciais preveem penalidades por falha de entrega causada por fatores externos. Só a partir desse mapeamento é possível avaliar se a cobertura contratada é de fato adequada.

O que as empresas podem fazer agora para se proteger de eventos climáticos

A boa notícia é que existem caminhos concretos para reduzir o gap climático de cobertura e construir uma proteção mais robusta. A má notícia é que esses caminhos exigem esforço, tempo e, sobretudo, uma mudança de mentalidade sobre o papel do seguro na estratégia corporativa.

O ponto de partida é sempre o diagnóstico. Antes de qualquer decisão sobre coberturas ou produtos, a empresa precisa entender com clareza onde está exposta a eventos climáticos. Esse diagnóstico deve incluir a operação própria, a cadeia de fornecimento, a infraestrutura de logística e as regiões geográficas relevantes para o negócio. Sem diagnóstico, qualquer decisão sobre seguro é, no mínimo, incompleta. A partir desse mapeamento, é possível tomar decisões mais informadas sobre as coberturas necessárias, considerando que o mercado já oferece produtos mais adequados ao cenário atual, ainda que raramente ofertados de forma proativa pelas corretoras tradicionais.

A seguir, os principais caminhos disponíveis para empresas que desejam construir uma proteção real contra eventos climáticos.

Revisar as cláusulas de exclusão com atenção específica a eventos climáticos

Não basta saber o que a apólice cobre. O que mais importa é entender o que ela não cobre e se as exclusões incluem categorias de eventos que estão se tornando mais frequentes na região onde a empresa opera.

Avaliar seguros paramétricos como complemento à cobertura tradicional

Os seguros paramétricos representam uma evolução importante para a proteção contra eventos climáticos. Diferentemente das apólices tradicionais, que dependem de peritagem e comprovação de dano, os seguros paramétricos pagam automaticamente quando um parâmetro previamente definido é atingido. Isso elimina a incerteza e a demora do processo de sinistro justamente quando a empresa mais precisa de liquidez.

Integrar o seguro ao plano de continuidade de negócios

A apólice de seguro não pode mais existir como um documento isolado na gaveta do departamento financeiro. Ela precisa estar integrada ao planejamento operacional da empresa, com cenários definidos, responsabilidades claras e processos de acionamento testados antes que o sinistro aconteça.

Estabelecer revisão periódica das coberturas em função das mudanças no cenário climático

Uma apólice contratada há três anos foi precificada com um padrão de risco que mudou. A revisão anual não pode ser apenas uma renovação automática. Precisa incluir uma análise crítica de se a cobertura ainda é adequada para o risco atual representado pelos eventos climáticos da região.

Incluir risco climático na agenda estratégica da liderança

Este não é um tema de facilities ou de gestão operacional. É uma variável que afeta diretamente a capacidade da empresa de cumprir seus contratos, proteger seus ativos e manter sua posição competitiva. Pertence à agenda do conselho de administração.

Resiliência Climática como vantagem competitiva no cenário de eventos climáticos crescentes

Há uma dimensão do problema que raramente é discutida, mas que tende a se tornar cada vez mais relevante nos próximos anos: a resiliência climática como diferencial competitivo. Empresas que investem em gestão proativa de risco climático, que revisam suas coberturas, que mapeiam suas vulnerabilidades e que constroem planos de continuidade robustos não estão apenas se protegendo de perdas. Estão construindo uma capacidade operacional que seus concorrentes menos preparados não têm.

Em setores onde a confiabilidade de entrega é um fator crítico de seleção de fornecedores, como o varejo organizado, a indústria automotiva ou o agronegócio de exportação, a capacidade de manter a operação funcionando durante e após eventos climáticos extremos pode ser um critério decisivo em processos de homologação de fornecedores. À medida que eventos climáticos se tornam mais frequentes, clientes de grande porte tendem a valorizar cada vez mais parceiros que demonstrem resiliência operacional comprovada. Essa preferência, que hoje ainda é implícita em muitos setores, tende a se tornar explícita nos contratos e nos processos de avaliação de fornecedores nos próximos anos.

Além disso, o risco climático já entrou definitivamente na pauta de investidores e financiadores. O Fundo Monetário Internacional (FMI) passou a incluir mudanças climáticas entre os critérios de análise para concessão de crédito, e grandes gestores de recursos ao redor do mundo incorporam progressivamente a exposição ao risco climático em suas análises de valuation. Segundo o Swiss Re Institute, a infraestrutura de proteção contra inundações, como diques e comportas, pode ser até dez vezes mais custo-efetiva do que a reconstrução pós-desastre. Traduzindo essa lógica para o ambiente corporativo: empresas que investem em resiliência antes do evento têm custo total significativamente menor do que aquelas que lidam com as consequências depois que os eventos climáticos já causaram o dano.

Conclusão: o risco de acreditar que está protegido contra eventos climáticos

Os eventos climáticos já chegaram à planilha de resultados das empresas brasileiras. Eles aparecem nos custos de logística, nas multas por atraso de entrega, nas perdas de receita por interrupção de operação, nas provisões para contingências e nas conversas difíceis com clientes que não receberam o que foi prometido. Com base nos dados de 2024 da Swiss Re e da Munich Re, esse impacto vai crescer nos próximos anos, não diminuir. A trajetória de aumento anual de 5% a 7% nas perdas seguradas globais indica que o que vivemos hoje é o piso, não o teto.

O mercado segurador, por sua vez, está em processo de adaptação, mas essa adaptação é lenta, incompleta e, em muitos casos, invisível para as empresas que dependem dessas coberturas. Novos produtos estão surgindo, modelos de precificação estão sendo revisados e reguladores ao redor do mundo estão começando a exigir mais transparência sobre a exposição climática das seguradoras. No Brasil, a CNseg e a Susep avançam em discussões sobre modernização regulatória, mas a transição levará tempo, e o gap de proteção continuará existindo nesse intervalo.

Nesse cenário, a responsabilidade de identificar e reduzir o gap climático de cobertura recai sobre as próprias empresas. Não é possível terceirizar essa tarefa inteiramente para corretoras ou seguradoras. É necessário olhar para dentro, mapear as vulnerabilidades reais, questionar as premissas das apólices contratadas e construir uma estratégia de proteção compatível com o mundo que existe, e não com o mundo para o qual o seguro foi originalmente desenhado.

A empresa da história que abriu este artigo reconstruiu sua operação. Levou meses e custou mais do que qualquer estimativa inicial. Parte do custo foi absorvida pelo caixa. Parte foi coberta por uma renegociação emergencial de apólice. Uma parte simplesmente não foi recuperada. Depois disso, ela fez o diagnóstico que deveria ter feito antes. Revisou as coberturas, avaliou alternativas de seguro paramétrico para interrupção de cadeia e incorporou risco climático ao seu planejamento de continuidade.

Sua empresa está protegida, ou apenas acredita que está? São perguntas diferentes. E a diferença entre elas pode custar caro.