REP Talks debate impactos do Super El Niño 2026 e reforça a importância da gestão de riscos nas empresas

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Projeções climáticas indicam que o fenômeno pode figurar entre os mais intensos da história recente. Durante o REP Talks, especialistas em meteorologia, gerenciamento de riscos e regulação de sinistros defenderam que as empresas precisam revisar sua exposição ao risco antes que os impactos climáticos comprometam operações, patrimônio e continuidade dos negócios.

O Super El Niño 2026 já mobiliza empresas e especialistas diante da perspectiva de um ciclo climático com potencial para provocar chuvas intensas, tempestades severas, estiagens prolongadas e interrupções operacionais em diferentes regiões do Brasil. Com base em projeções meteorológicas e na experiência de organizações que enfrentaram eventos extremos nos últimos anos, o REP Talks Super El Niño 2026 reuniu executivos e especialistas para discutir como o gerenciamento de riscos pode apoiar empresas na preparação para esse cenário.

Participaram do encontro Felipe Weiler Cervi, presidente da REP Seguros, Marlon Pasco Basso, Superintendente de Gerenciamento de Riscos da REP Risk, Estael Sias, meteorologista e sócia-diretora da MetSul Meteorologia, Ana Paula Andriolli, Gerente de Riscos e Seguros da Copel, e Marcos Ademir Araujo, Coordenador de Sinistros de Property da Addvalora Brasil. Ao longo do evento, os palestrantes analisaram as projeções para o próximo ciclo climático, compartilharam experiências práticas sobre gestão de crises e discutiram medidas capazes de aumentar a resiliência das organizações diante de eventos extremos.

Embora cada especialista tenha abordado o tema sob uma perspectiva diferente, as conclusões convergiram para um mesmo ponto: a preparação precisa acontecer antes da emergência. Revisar programas de seguros, fortalecer a engenharia de riscos, monitorar cenários climáticos e integrar essas informações às decisões estratégicas tornou-se parte da agenda de continuidade dos negócios.

Neste artigo, você vai entender o que as projeções indicam para o Super El Niño 2026, quais foram os principais alertas apresentados durante o REP Talks, como diferentes especialistas avaliam os impactos sobre as empresas e por que o gerenciamento de riscos passa a ocupar um papel estratégico diante das mudanças climáticas.

Super El Niño 2026 pode redefinir o nível de exposição das empresas

O principal alerta apresentado durante o evento veio da meteorologista Estael Sias. Segundo ela, os modelos climáticos indicam que o atual ciclo de aquecimento do Oceano Pacífico apresenta características que podem colocá-lo entre os episódios mais intensos desde o início das medições modernas. De acordo com projeções do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) e análises divulgadas pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial deverá atingir seu pico entre outubro e dezembro de 2026. Esse comportamento aumenta significativamente a probabilidade de alterações importantes nos regimes de chuva e temperatura em diversas regiões da América do Sul.

Embora nenhum evento climático produza exatamente os mesmos efeitos, os episódios de El Niño registrados em 1997-1998 e 2015-2016 servem como referência para compreender a dimensão dos impactos que podem ocorrer. Desta vez, porém, o comportamento observado até o momento sugere um cenário potencialmente ainda mais intenso.

Isso não significa que todas as regiões enfrentarão os mesmos desafios. Pelo contrário. Enquanto o Sul do Brasil tende a registrar volumes elevados de chuva e maior ocorrência de tempestades severas, outras regiões poderão enfrentar períodos prolongados de estiagem, afetando agricultura, geração hidrelétrica, abastecimento e transporte.

Essa característica torna o gerenciamento de riscos mais complexo. O mesmo fenômeno climático produz consequências completamente diferentes dependendo da localização da operação, da atividade econômica e da estrutura física de cada empresa.

A consequência prática é que não existe uma resposta única para todas as organizações. Existe, sim, a necessidade de compreender a exposição específica de cada operação. O clima é global, mas o risco é sempre local.

O impacto vai muito além dos danos materiais

Quando se fala em eventos climáticos extremos, é comum que a primeira imagem seja a destruição de prédios, equipamentos ou estoques. Embora esses prejuízos sejam relevantes, eles representam apenas parte das perdas que uma empresa pode enfrentar. Em muitos casos, o maior impacto surge após o evento.

Por exemplo, uma fábrica pode permanecer semanas sem produzir porque fornecedores também foram afetados., por outro lado, uma transportadora pode encontrar rodovias interditadas durante dias, ou até mesmo um centro de distribuição pode perder capacidade operacional mesmo sem sofrer danos estruturais significativos. Empresas prestadoras de serviço podem enfrentar interrupções de energia, indisponibilidade de sistemas ou dificuldade de acesso das equipes.

Esses efeitos indiretos costumam provocar perdas financeiras superiores ao dano físico inicial. Segundo o relatório Cost of a Natural Catastrophe, publicado pela Swiss Re Institute, uma parcela significativa dos prejuízos econômicos provocados por desastres naturais está relacionada às interrupções operacionais e aos efeitos em cadeia sobre fornecedores, clientes e parceiros comerciais.

Essa realidade reforça um aspecto frequentemente destacado pelos especialistas durante o REP Talks: o gerenciamento de riscos não deve se limitar à contratação de seguros.

Mapear vulnerabilidades, compreender dependências críticas, estabelecer planos de contingência e revisar periodicamente programas de proteção patrimonial são medidas que contribuem para aumentar a resiliência das organizações.

Essa abordagem também exige uma mudança cultural. Historicamente, muitas empresas dimensionaram seus programas de seguros utilizando como referência apenas eventos ocorridos no passado. Em um contexto de mudanças climáticas, essa lógica tende a perder eficiência.

Eventos considerados improváveis há poucos anos passam a ocorrer com maior frequência, enquanto novos padrões climáticos ampliam a exposição de regiões que antes não figuravam entre as mais vulneráveis.

Mais do que proteger ativos, torna-se necessário compreender como diferentes riscos podem comprometer a continuidade do negócio. A intensidade do próximo evento climático pode ser incerta. Permanecer tomando decisões com base no clima do passado, porém, é um risco que já pode ser medido.


Gestão de riscos começa antes da previsão do tempo

A meteorologia fornece informações essenciais para antecipar cenários, mas a forma como cada empresa responde a essas informações é o que determina sua capacidade de enfrentar eventos extremos. Essa foi uma das principais mensagens compartilhadas por Ana Paula Andriolli, Gerente de Riscos e Seguros da Copel.

Segundo a executiva, o maior desafio das organizações não está apenas em compreender o comportamento do clima, mas em incorporar essa variável aos processos de tomada de decisão. Esperar que um evento aconteça para revisar coberturas, atualizar planos de contingência ou fortalecer estruturas físicas significa agir quando boa parte das alternativas já deixou de existir.

A experiência recente mostrou que perdas financeiras não decorrem apenas da intensidade do fenômeno climático. Em muitos casos, elas são consequência de decisões adiadas. Empresas que acreditavam possuir proteção suficiente descobriram, durante o processo de regulação de sinistros, que determinadas coberturas eram insuficientes para responder ao tamanho real dos prejuízos.

Essa constatação reforça uma mudança importante na forma de enxergar o gerenciamento de riscos. Durante muito tempo, programas de seguros foram estruturados com base no histórico de perdas da organização. Hoje, esse histórico continua relevante, mas já não é suficiente para representar a exposição futura.

As mudanças climáticas alteraram a frequência, a intensidade e a distribuição geográfica de diversos eventos extremos. Isso significa que empresas precisam complementar sua análise histórica com projeções climáticas, avaliações de engenharia de riscos e estudos sobre impactos operacionais.

Mais do que revisar uma apólice, trata-se de revisar premissas. O maior risco não é o evento extremo. É acreditar que a exposição da empresa continua sendo a mesma de cinco anos atrás.

Quando o sinistro acontece, já não existe espaço para corrigir decisões

A visão de Marcos Ademir Araujo, coordenador de Sinistros da Addvalora, acrescentou ao debate a perspectiva de quem acompanha empresas depois que o dano já ocorreu. Atuando há mais de 18 anos na regulação de sinistros patrimoniais, ele destacou que muitos problemas identificados durante uma indenização poderiam ter sido evitados ainda na fase de planejamento.

Entre as situações mais recorrentes está a insuficiência de coberturas específicas para eventos como alagamentos, vendavais e granizo. Embora o patrimônio esteja segurado, determinadas verbas possuem limites próprios que nem sempre acompanham a evolução da exposição ao risco.

Na prática, isso significa que uma empresa pode receber a indenização prevista contratualmente e, ainda assim, permanecer com uma parcela significativa do prejuízo sob sua responsabilidade.

Essa realidade ficou evidente após os eventos climáticos que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Além dos danos diretos às instalações, muitas empresas enfrentaram paralisações prolongadas, dificuldades para reconstrução, escassez de fornecedores e aumento expressivo dos custos de recuperação.

Em diversos casos, o desafio não estava apenas em reparar estruturas físicas, mas em manter o negócio funcionando enquanto toda a região enfrentava os efeitos da mesma catástrofe.

Por isso, prevenção e transferência de riscos não podem ser tratadas como iniciativas independentes. Elas precisam fazer parte de uma estratégia integrada que considere tanto a probabilidade de ocorrência quanto a capacidade financeira da organização para suportar perdas.

Essa lógica também amplia o papel da engenharia de riscos. Inspeções técnicas, identificação de vulnerabilidades construtivas, análise da localização dos ativos e implementação de medidas preventivas reduzem a probabilidade de perdas e fortalecem a qualidade do programa de seguros.

Uma apólice bem estruturada protege patrimônio. Um gerenciamento de riscos consistente protege a continuidade do negócio.

Eventos extremos exigem uma nova cultura de governança

Outro ponto que permeou toda a discussão foi a necessidade de incorporar o risco climático à governança corporativa. Isso significa deixar de tratar o clima como um tema restrito às áreas operacionais e reconhecê-lo como um fator capaz de influenciar decisões estratégicas.

Empresas cada vez mais dependem de cadeias de suprimentos complexas, operações distribuídas em diferentes regiões e infraestrutura altamente conectada. Nesse contexto, um único evento climático pode produzir impactos simultâneos sobre fornecedores, logística, produção, atendimento ao cliente e fluxo financeiro.

A resposta para esse cenário não está apenas na adoção de novas tecnologias ou na ampliação de coberturas securitárias. Ela passa pela construção de processos permanentes de monitoramento, avaliação e tomada de decisão.

Isso inclui acompanhar projeções meteorológicas, revisar planos de continuidade de negócios, testar protocolos de resposta, identificar ativos críticos e estabelecer prioridades para recuperação das operações.

Organizações que conseguem integrar essas práticas tendem a responder com maior velocidade quando eventos extremos acontecem. Mais do que reduzir perdas, elas preservam sua capacidade de operar em momentos de elevada pressão.

Essa diferença pode representar vantagem competitiva em um ambiente de negócios cada vez mais exposto às transformações climáticas. Resiliência empresarial não se mede pela capacidade de evitar crises. Mede-se pela capacidade de continuar operando quando elas acontecem.


O Super El Niño exige decisões diferentes das tomadas no passado

Ao longo do REP Talks, ficou evidente que o desafio das empresas não será apenas acompanhar as previsões meteorológicas, mas transformar essas informações em decisões capazes de reduzir vulnerabilidades antes que os impactos aconteçam.

Esse movimento exige uma mudança de postura. Tradicionalmente, muitas organizações tratavam o gerenciamento de riscos como uma atividade voltada ao cumprimento de exigências contratuais ou à renovação anual dos programas de seguros. Em um cenário de mudanças climáticas, essa abordagem deixa de ser suficiente.

O risco climático tornou-se dinâmico. Novas informações surgem constantemente, cenários mudam com rapidez e decisões tomadas há poucos anos podem já não refletir a realidade operacional da empresa.

Nesse contexto, a atualização permanente do mapa de riscos passa a ser tão importante quanto a própria contratação de seguros. Empresas que revisam periodicamente seus ativos, processos, fornecedores críticos e planos de continuidade conseguem identificar vulnerabilidades antes que elas se transformem em perdas financeiras.

Esse processo também favorece decisões mais eficientes sobre investimentos em prevenção. Nem toda vulnerabilidade exige grandes obras ou elevados investimentos. Em muitos casos, ajustes operacionais, mudanças de layout, revisão de procedimentos, realocação de estoques ou implantação de protocolos de resposta rápida já reduzem significativamente a exposição.

A engenharia de riscos contribui justamente para essa priorização. Ao analisar tecnicamente a operação, torna-se possível identificar quais riscos apresentam maior potencial de impacto e quais ações oferecem melhor relação entre investimento e redução de perdas. Essa lógica representa uma evolução importante na gestão empresarial, isso porque, o objetivo deixa de ser apenas reparar prejuízos e passa a ser reduzir a probabilidade de que eles aconteçam.

Uma visão integrada entre clima, operação e estratégia

Outro aprendizado relevante do evento foi a necessidade de aproximar áreas que historicamente trabalharam de forma isolada. As decisões relacionadas ao risco climático não pertencem apenas às equipes de segurança, manutenção ou seguros. Elas envolvem operações, logística, suprimentos, engenharia, finanças e alta administração.

Quando essas áreas compartilham informações, a empresa desenvolve uma visão mais completa sobre sua exposição e consegue responder de forma coordenada diante de um evento extremo.

Imagine uma indústria localizada em uma região sujeita a enchentes. A área de engenharia pode identificar pontos vulneráveis da planta. A logística consegue mapear rotas alternativas para transporte. O suprimento avalia fornecedores localizados em diferentes regiões. A área financeira estima os impactos sobre o fluxo de caixa. Já o gerenciamento de riscos integra essas informações para apoiar decisões estratégicas.

Essa abordagem reduz incertezas e fortalece a capacidade de resposta da organização. O mesmo princípio vale para empresas que atuam em setores menos expostos fisicamente. Organizações de tecnologia, saúde, varejo ou serviços também dependem de energia, telecomunicações, mobilidade urbana e cadeias de abastecimento que podem ser afetadas por eventos climáticos severos.

Em outras palavras, poucas empresas estão realmente fora da influência do clima, o que muda é a forma como esse risco se manifesta. Ou seja, quanto mais complexa é uma operação, maior tende a ser o efeito indireto provocado por eventos climáticos extremos.

Conclusão: o futuro do gerenciamento de riscos passa pela antecipação

As discussões promovidas durante o REP Talks reforçam uma tendência observada em diferentes mercados: o gerenciamento de riscos deixa de atuar apenas como resposta aos problemas e assume um papel cada vez mais estratégico na construção da resiliência empresarial.

As projeções climáticas para os próximos meses representam um alerta importante, mas também uma oportunidade para que empresas revisem processos, fortaleçam sua governança e desenvolvam maior capacidade de adaptação.

Independentemente da intensidade que o Super El Niño alcance, uma conclusão parece consensual entre os especialistas: organizações preparadas respondem melhor aos eventos extremos do que aquelas que iniciam suas avaliações apenas após a ocorrência de um sinistro.

Esse preparo envolve conhecimento técnico, monitoramento contínuo, planejamento e decisões fundamentadas em análises atualizadas da exposição ao risco. O clima continuará produzindo incertezas. Essa é uma característica inerente aos fenômenos naturais. O que pode ser controlado é a forma como cada organização escolhe se preparar para conviver com elas.

No fim das contas, o Super El Niño 2026 representa mais do que um fenômeno meteorológico. Ele simboliza uma mudança de paradigma para o ambiente empresarial. A competitividade das organizações dependerá cada vez mais da capacidade de antecipar riscos, proteger seus ativos e garantir a continuidade de suas operações em um cenário marcado por eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos.

Empresas não serão lembradas por preverem a próxima tempestade. Serão lembradas pela capacidade de continuar operando quando ela chegar.