REP BOX — El Niño: atualizações | 04/08/2026

Gestão de risco
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O El Niño passou a ser classificado como de intensidade ao menos forte pelos dois critérios oficiais de monitoramento da NOAA, segundo boletim analisado pela MetSul Meteorologia da última segunda-feira, dia 03 de agosto. Pelo índice tradicional (ONI), a anomalia de temperatura na Região Niño 3.4 do Pacífico Equatorial chegou a +2,3°C, no patamar de Super El Niño. Pelo novo índice relativo (RONI), que desconta o aquecimento de fundo dos oceanos, a anomalia atingiu +1,5°C, o piso da categoria forte. Nunca, nos registros modernos, esse patamar havia sido alcançado tão cedo no ano.

No Rio Grande do Sul, o fenômeno deixou de ser projeção de boletim e virou água na porta de casa. O Rio dos Sinos, que corta a região onde fica a sede da REP em Novo Hamburgo, enfrentou a segunda onda de cheia em menos de uma semana, com Campo Bom registrando julho mais chuvoso em quatro décadas. A boa notícia é que, na terça-feira, dia 04 de agosto, o nível já recua.

Nesta edição do REP Box, reunimos a intensificação do El Niño pelos dois critérios da NOAA, o que a cheia do Vale do Sinos revela sobre exposição hídrica na Região Metropolitana, o caos logístico nos Andes que já dura mais de uma semana, e a previsão da MetSulpara o mês de agosto inteiro.

El Niño: o que está acontecendo agora?

Forte pelos dois critérios, e nunca tão cedo

Até este ano, os dois principais índices que a NOAA usa para classificar El Niño e La Niña, o ONI tradicional e o novo RONI, raramente convergiam com essa rapidez. O ONI, calculado sobre uma climatologia fixa de 30 anos, chegou a +2,3°C na Região Niño 3.4, valor de Super El Niño. O RONI, criado neste ano justamente para descontar o aquecimento de fundo dos oceanos e isolar o sinal natural do fenômeno, atingiu +1,5°C, piso da categoria forte.

Nos registros modernos do ONI, jamais o patamar de Super El Niño (+2°C) havia sido atingido tão cedo. Neste ano de 2026, a marca foi cruzada já na semana de 8 de julho. Para comparação, no Super El Niño de 1982-1983 isso só ocorreu em 24 de novembro; no de 1997-1998, em 3 de setembro; no de 2015-2016, em 16 de setembro; no episódio mais recente, de 2023-2024, em 22 de novembro. Pelo RONI, o único evento que chegou perto desse ritmo foi o de 1997-1998, que atingiu intensidade forte em 23 de julho, ainda assim depois do que se observa agora.

Já na Região Niño 1+2, no Pacífico Leste, junto aos litorais do Peru e Equador, as anomalias são ainda mais extremas: +4,1°C pelo ONI (classificado como extraordinário) e +3,2°C pelo RONI (muito intenso).

Rio Grande do Sul: a cheia que bateu à porta de Novo Hamburgo

Enquanto o Pacífico bate recordes, o efeito prático já apareceu no Vale do Sinos. O Rio dos Sinos enfrentou nos últimos dias a segunda onda de cheia em menos de uma semana, com volume ainda maior que a primeira, impulsionado por chuva intensa entre 27 e 28 de julho somada à elevação do Rio Paranhana. Em Campo Bom, o rio chegou a marcar 7,10 metros, e em Taquara, na cabeceira da bacia, atingiu 7,78 metros. Em São Leopoldo, o nível passou da cota de inundação de 4,50 metros, com risco de atingir bairros como Feitoria e São Geraldo a partir dos 5,10 metros.

O acumulado de chuva em Campo Bom no mês de julho chegou a 317,6 milímetros, 93,2% acima da média histórica dos últimos 42 anos, tornando julho de 2026 o segundo mais chuvoso da série iniciada em 1985, atrás apenas de julho de 2015. A cheia avançou pela Grande Porto Alegre, atingindo também Sapucaia do Sul, Esteio e Canoas, onde a Praia de Paquetá ficou acessível apenas de barco durante alguns dias.

A MetSul fez questão de calibrar a expectativa: a situação não tem comparação em proporção com a enchente de maio de 2024, sendo muito menos grave. Nesta terça-feira (04), os níveis já recuam, com redução de cerca de 2,6 centímetros por hora na região de Canoas e projeção de queda entre 30 e 60 centímetros por dia nos próximos dias.

Para quem opera patrimônio, estoque ou frota na região do Vale do Sinos e Grande Porto Alegre, o episódio é lembrete concreto do que tratamos no guia de Seguro Patrimonial: exposição hídrica recorrente em bacias urbanizadas raramente aparece no dimensionamento até o segundo ou terceiro evento em sequência.

Reprodução: MetSul

Vento Norte: quando o risco não vem da chuva

Nem todo dano climático desta janela veio de água parada. Um vento Norte, quente e seco, atingiu o Rio Grande do Sul a partir de sexta-feira, com pelo menos 16 municípios registrando ocorrências até o sábado, segundo a Defesa Civil estadual. Mais de 45 residências sofreram danos, concentrados especialmente em Santa Maria, com 19 casas atingidas. Destelhamento foi o tipo de ocorrência mais frequente, com queda de árvores, interrupção de energia e danos em prédios públicos e particulares em diferentes regiões. Em Quaraí, uma construção em andamento chegou a desabar parcialmente e atingir uma residência vizinha.

Dias antes, um vendaval de quase 100 km/h já havia causado destruição no Litoral Norte, derrubando postes, destelhando casas e deixando milhares sem energia em Osório, Imbé e Tramandaí. A Prefeitura de Osório chegou a abrir ginásio municipal para acolher famílias desabrigadas.

Andes: neve histórica gera caos logístico e boom no turismo

No outro lado da Cordilheira, a maior nevasca em anos entre Chile e Argentina já dura mais de uma semana em alguns setores, com rodovias bloqueadas, comunidades isoladas e milhares de caminhões parados nos principais corredores entre os dois países, incluindo o Sistema Cristo Redentor, rota terrestre mais importante do comércio bilateral. Só em Mendoza, o plano de manutenção invernal argentino cobre mais de 7.800 quilômetros de rodovias nacionais, com mais de 450 agentes e 350 equipamentos mobilizados para desobstrução.

O mesmo evento que trava caminhão também enche pista de esqui. Cidades de neve como Bariloche e Ushuaia tiveram temporada turística reforçada pela fartura de neve, mesmo em meio ao caos logístico nas rodovias de acesso. É o padrão que discutimos no guia de Transporte de Cargas: operações que dependem de corredor internacional único de passagem enfrentam janelas de paralisação que se repetem a cada temporada de inverno na Cordilheira, e o dimensionamento de Lucros Cessantes para cadeia logística precisa considerar esse padrão sazonal, não tratá-lo como imprevisto.

O que agosto reserva, segundo a MetSul

Agosto costuma ser, historicamente, o mês de maior variabilidade térmica do trimestre de inverno no Sul do Brasil, e também o de mais temporais, pela maior alternância entre massas de ar frio e quente à medida que a primavera se aproxima. Em Porto Alegre, a mínima média do mês (11,6°C) já é mais alta que a de junho e julho, e a chuva média mensal (120,1 mm) é a menor do trimestre, embora o histórico inclua episódios extremos: as grandes enchentes de 1965 na Metade Norte do estado, a nevada histórica do mesmo ano, a neve de 1984 que chegou a Porto Alegre, e a maior nevada do século no Sul do Brasil, em 2013.

Neste ano, a influência do Super El Niño amplia o quadro. No Sul do Brasil, a expectativa é de chuva acima da média nos três estados, com risco elevado de temporais, granizo e vendavais a partir de agosto. O que chama atenção é que o mesmo padrão de chuva acima da média se estende, neste ciclo, ao Centro-Oeste e ao Sudeste, regiões que historicamente têm em agosto o auge da estação seca. Como as médias históricas dessas regiões são baixíssimas nesta época, não é preciso muita chuva para superar o padrão, mas o sinal é consistente com o comportamento típico de El Niño.

Quanto à temperatura, a maior parte do Centro-Sul do Brasil deve ter agosto mais quente que a média, com o Centro-Oeste registrando dias recorrentes de calor próximo ou acima de 40°C, especialmente no Mato Grosso. No Sudeste, o calor deve se concentrar no interior de São Paulo e no Triângulo Mineiro. Mesmo com a tendência geral mais quente, frentes de ar frio pontuais continuam possíveis, com uma delas prevista já para a segunda semana do mês.

Previsão para os próximos dias

Uma frente fria muda o tempo logo no início de agosto, trazendo linha de instabilidade que avança rapidamente de Sul para Norte no Rio Grande do Sul, com risco maior de vendaval do que de chuva volumosa. Rajadas entre 70 km/h e 90 km/h são esperadas na maior parte do estado, podendo superar 100 km/h de forma isolada, com maior risco nas regiões Oeste, Centro, Campanha e Sul. Quedas de árvores, postes e destelhamentos estão entre os impactos mais prováveis, e não se afasta o risco de fenômenos localizados severos, como microexplosões.

A chuva também retorna ao Oeste gaúcho nos próximos dias e deve se espalhar para mais áreas do estado, com tendência de não deixar a região por vários dias seguidos, segundo análise da MetSul. → Leia a análise completa na MetSul

Radar de Riscos

1. El Niño forte pelos dois critérios da NOAA, no ritmo mais rápido já visto (MetSul Meteorologia, 04/08/2026)

O patamar de Super El Niño (ONI +2°C) foi atingido na semana de 8 de julho, o mais precoce dos registros modernos, superando inclusive o evento de 1997-1998. O que isso significa para quem gerencia risco: o pico do fenômeno, historicamente entre outubro e dezembro, ainda não chegou, e o ritmo de intensificação sugere que os efeitos mais fortes do ciclo 2026-2027 ainda estão por vir. A janela para revisar coberturas climáticas antes do pico continua encurtando.

2. A cheia do Rio dos Sinos evidencia exposição hídrica recorrente no Vale do Sinos (MetSul Meteorologia, 31/07 a 04/08/2026)

Segunda onda de cheia em menos de uma semana, com julho de 2026 sendo o segundo mais chuvoso em quatro décadas na região de Campo Bom. O que isso significa: operações patrimoniais, logísticas e industriais localizadas em bacias urbanizadas do Vale do Sinos e da Grande Porto Alegre enfrentam padrão de recorrência que já não cabe na categoria de evento excepcional. Revisão de cobertura para eventos hidrológicos e de Lucros Cessantes por paralisação em cascata é medida preventiva, não resposta a imprevisto.

3. Neve histórica na Cordilheira expõe fragilidade de corredor logístico único (Fontes internacionais, semana de 27/07 a 03/08/2026)

Mais de uma semana de nevasca bloqueando rodovias entre Chile e Argentina, incluindo o principal corredor comercial entre os dois países, com milhares de caminhões parados. O que isso significa: operações que dependem de rota única internacional para importação ou exportação enfrentam risco sazonal recorrente, não acidental. Contingent business interruption e dimensionamento de Lucros Cessantes por paralisação de fornecedor crítico devem considerar esse padrão como variável estrutural do planejamento logístico anual, especialmente para cargas que dependem da Cordilheira nos meses de inverno.

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Aqui na REP

A gravação do REP Talks | Super El Niño 2026 continua disponível para quem ainda não assistiu. Os recortes técnicos discutidos por Estael Sias sobre a intensificação do fenômeno seguem sendo confirmados semana a semana, e o episódio mais recente (El Niño forte pelos dois critérios da NOAA) é exatamente o tipo de atualização que a especialista havia sinalizado como esperada para este ponto do ciclo.